Você treina? Saiba mais sobre a importância da força muscular e suas avaliações

De acordo com diversos dados da literatura científica, parece não existir nenhuma capacidade física melhor que a força muscular para alcançar melhoras no desempenho esportivo, maiores desenvolvimentos de habilidades motoras e redução do risco de lesões 1 .

Indivíduos com maior força e potência muscular, desempenham melhores tarefas como os saltos verticais e horizontais, sprints e mudanças rápidas de direção 1,2 . E seu desenvolvimento ainda é associado à melhora na execução das tarefas da vida cotidiana, melhora na qualidade e expectativa de vida e, principalmente nos idosos, redução no risco de quedas e manutenção do estilo de vida independente 3 .

Considerando então a importância do seu desenvolvimento e manutenção, tanto no cenário esportivo como na saúde e qualidade de vida da população, a literatura destaca a importância do monitoramento das alterações da força muscular ao longo da vida e no decorrer de um programa de treino. Abaixo apresentamos os principais testes de força muscular que podem ser aplicados em atletas e nos indivíduos praticantes de atividades físicas recreacionais ou com objetivo de saúde e qualidade de vida. Abordaremos tanto as avaliações realizadas no ambiente das pesquisas, como as que podem ser utilizadas na prática das academias e clubes esportivos.

Existem diferentes formas de avaliar a capacidade de produção de força de um indivíduo. Os testes podem ser realizados em laboratórios de pesquisa (onde se faz uso de equipamentos mais sofisticados, como os dinamômetros isocinéticos e plataformas de força) ou mesmo na sala de musculação (testes mais simples, que não requerem equipamentos de precisão e podem ser empregados durante a prática esportiva).

1) Testes de campo. Uma repetição máxima (1RM): É o teste mais utilizado para avaliação da força tanto na prática como nas pesquisas. Consiste em buscar encontrar qual o máximo de peso que a pessoa consegue levantar em uma única repetição em alguns exercícios pré-estabelecidos.

E, daí vem o nome: teste de carga máxima (ou uma repetição máxima – 1RM). O teste de 1RM é muito utilizado para acompanhar o desenvolvimento da força muscular em uma variedade de exercícios (como Agachamentos, Supino e Levantamentos) e também como parâmetro para prescrição de intensidade dos treinos resistidos (onde podemos prescrever os pesos a serem utilizados pelo % de 1RM) 5 .

Porém, esse teste possui 2 principais limitações: 1) Tempo destinado a avaliação: é um dos maiores limitantes de sua aplicação em clubes e academias pois, devido aos intervalos de recuperação elevados entre as tentativas, a avaliação da carga de 1RM para um único exercício pode levar de 30 a 40 minutos; 2) Possível risco de lesões: devido às altas cargas utilizadas no teste, pode ocorrer a realização inadequada dos movimentos escolhidos para o teste, gerando assim riscos à saúde física do praticante. Tal risco pode estar presente tanto em indivíduos treinados, como não treinados em força.

2) Teste de campo. Equações para predição de 1RM (1RM estimado): Para reduzir as limitações do teste de 1 RM, alguns pequisadores formularam equações que pudessem estimar as cargas de 1RM em testes mais simples, rápidos e seguros 7 . As equações são desenvolvidas através de análises de regressão linear e não linear, estabelecidas entre as cargas e o número de movimentos realizados.

As equações de predição de 1RM são muito úteis na prática do dia-dia para profissionais que atuam diretamente na prescrição do treinamento resistido. Entretanto, conforme enfatizado em estudos, todas as equações possuem uma certa estimativa de erro, podendo supra estimar ou subestimar os valores reais de 1RM. Exemplo de uma equação de predição de 1RM: 1RM = (carga / (1.0278 – [0.0278 x movimentos])

3) Testes laboratoriais e parâmetros reportados nas pesquisas: São testes utilizados principalmente para pesquisa científica. Devido a questões técnicas como a reprodutibilidade, confiabilidade e precisão das medidas exigidas nas pesquisas, algumas avaliações laboratoriais da força geralmente empregam ações musculares isométricas. Esse modelo experimental permite avaliar a força produzida em um determinado intervalo de tempo, sendo denominada de contração voluntária máxima ou contração voluntária máxima isométrica.

A análise dos dados de uma contração voluntária máxima nos permite extrair basicamente dois parâmetros: 1) a força pico e 2) a taxa de desenvolvimento de força. Isso é importante pois, aumentos na taxa de desenvolvimento da força constituem benefícios importantíssimos tanto para atletas de alto rendimento – que precisam impor muita força em curtos intervalos de tempo – quanto para idosos, que frequentemente necessitam lidar com desequilíbrios posturais inesperados e evitar quedas 4 .

Considerações finais sobre avaliações de Força. Qual a melhor a ser utilizada? Tanto no âmbito científico, como na prática esportiva, o desenvolvimento, acompanhamento e monitoramento da força muscular são de extrema importância.

A escolha dos testes mais adequados, testes diretos ou indiretos, a escolha dos exercícios e grupos musculares a serem avaliados, a interpretação dos resultados e qual será sua a aplicação é de responsabilidade dos profissionais que vão empregá-los.

Estes profissionais tem a responsabilidade de considerar qual população será avaliada e se os resultados serão utilizados para o acompanhamento e/ou para a prescrição da intensidade dos treinos. Considerando tais aspectos, recomendamos que os profissionais façam suas análises de contexto e seu uso com precaução.

Texto: Phd. Bernardo Neme Ide – Laboratório de Bioquímica do Exercício, Universidade Estadual de Campinas/SP.

Referências

1. Suchomel, T. J., Nimphius, S. & Stone, M. H. The Importance of Muscular Strength in Athletic Performance. Sports Med. 46, 1419–49 (2016).

2. Seitz, L. B. & Haff, G. G. Factors Modulating Post-Activation Potentiation of Jump, Sprint, Throw, and Upper-Body Ballistic Performances: A Systematic Review with MetaAnalysis. Sport. Med. 46, 231–240 (2016).

3. Aagaard, P., Suetta, C., Caserotti, P., Magnusson, S. P. & Kjær, M. Role of the nervous system in sarcopenia and muscle atrophy with aging: Strength training as a countermeasure. Scand. J. Med. Sci. Sport. 20, 49–64 (2010).

4. Aagaard, P., Simonsen, E. B., Andersen, J. L., Magnusson, P. & Dyhre-Poulsen, P. Increased rate of force development and neural drive of human skeletal muscle following resistance training. J. Appl. Physiol. 93, 1318–1326 (2002).

5. Fry, A. C. The role of resistance exercise intensity on muscle fibre adaptations. Sports Med. 34, 663–79 (2004).

6. Brown, L. E. & Weir, J. P. ASEP procedures recommendation I: Accurate assessment of muscular strength and power. J. Exerc. Physiol. Online 4, 1–21 (2001).

7. Reynolds, J. M., Gordon, T. J. & Robergs, R. A. Prediction of one repetition maximum strength from multiple repetition maximum testing and anthropometry. J. strength Cond. Res. 20, 584–92 (2006).

8. Abadie, B. R. & Wentworth, M. C. Prediction of one repetition maximal strength from a 5-10 repetition submaximal strength test in college-aged females. J. Exerc. Physiol. Online (2000).

9. Brzycki, M. Strength Testing—Predicting a One-Rep Max from Reps-to-Fatigue. J. Phys. Educ. Recreat. Danc. 64, 88–90 (1993).

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