Para treinar escute o coração, mas com propriedade!

Há muito tempo a frequência cardíaca é utilizada como parâmetro para medir a intensidade do esforço físico ou estimar o gasto calórico da atividade que executamos. Lembro nitidamente de na infância, ao final dos treinos de futebol, medir o batimento cardíaco pela artéria radial ou pela artéria carótida, orientado pelo Professor de Educação Física. Lembro nitidamente do primeiro frequencímetro Polar cinza redondinho, que mesmo impreciso, foi uma evolução enorme, pois possibilitou monitorar o batimento cardíaco em tempo real e ainda registrava os dados para acessarmos posteriormente.

De fato, o comportamento da frequência cardíaca durante a prática esportiva pode nos dar informações importantes sobre como nosso organismo está reagindo ao esforço, quais os limites que devemos respeitar, qual via metabólica de produção de energia estamos usando de forma prioritária, além de proporcionar parâmetros para treinamento ou para estratégias de provas.  Não a toa que, desde o Polar cinza redondinho, os frequencímetros evoluíram em tamanho, memória, registro de dados e precisão, fornecendo uma infinidade de possibilidades.

O aumento dos batimentos cardíacos quando nos exercitamos é parte de um processo que envolve alteração do equilíbrio entre os sistemas respiratório, cardiovascular e musculoesquelético. Ao sairmos do repouso para um trote, os músculos envolvidos no esforço aumentam a demanda energética e a resposta natural do organismo é aportar mais oxigênio para sustentar a atividade muscular nesse novo patamar de esforço. Isso resumidamente envolve aumento do volume e do fluxo respiratório, aumento da pressão arterial sistólica, abertura de capilares responsáveis pela perfusão de oxigênio no músculo, aumento da atividade enzimática e mitocondrial no interior da célula muscular e aumento da quantidade de sangue arterial bombeado pelo coração, tanto pelo volume bombeado, como pelo número de batimentos.

Em exercícios de endurance (corridas, ciclismo, natação), assim como em muitos dos jogos coletivos, mesmo que intermitentes (futebol, basquete, tênis), esse “equilíbrio-desequilíbrio-reequilíbrio” ocorre de forma proporcional ao aumento ou diminuição do nível de esforço e a frequência cardíaca reflete de forma confiável o quanto estamos usando na nossa capacidade física e permite inferir outros parâmetros tais como o quanto estamos consumindo de oxigênio para produzir energia ou o gasto calórico durante o exercício.

Entretanto não é sempre que essa relação ocorre de forma satisfatória. O batimento cardíaco é comandado por uma “bateria” chamada nodo sinoatrial que envia ao músculo cardíaco os impulsos elétricos que comandam o ritmo do coração. O sistema nervoso autônomo tem grande influência sobre a intensidade e a frequência com que o nodo sinoatrial controla a contração cardíaca e a noradrenalina é o principal hormônio responsável pela aceleração dos batimentos. O exercício é um poderoso estímulo adrenérgico sobre o nodo sinoatrial aumentando a frequência cardíaca, mas outros fatores também podem exercer função semelhante alterando a proporcionalidade com a intensidade do esforço e comprometendo a utilização dessa variável como indicativo de intensidade do exercício.

Entre esses fatores destacam-se todos os que superexcitam o sistema nervoso central gerando resposta adrenérgica aumentada. Eles podem ser de natureza exógena com a utilização de estimulantes como a cafeína, podem ser emocionais, quando estamos muito ansiosos ou sobre grande pressão, ou devido ao stress ou overtraining, após noites mal dormidas ou períodos de treinamento intensos sem descanso devido.

Calor excessivo e desidratação também têm impacto sobre o batimento cardíaco. A sudorese em grandes quantidades causa diminuição do volume plasmático e consequente aumento da frequência cardíaca, independente da intensidade do exercício, para manter o volume de ejeção.

Outra situação em a frequência cardíaca é mal interpretada é durante a realização de exercícios de força muscular. Quando realizamos uma contração muscular com mais de 50% da força máxima há oclusão do fluxo sanguíneo nos tecidos ativos e uma resposta adrenérgica aumentada com aumento dos batimentos cardíacos cerca de três vezes maior do que o efetivo consumo de oxigênio.

Portanto, utilize fartamente a frequência cardíaca como parâmetro de intensidade de esforço físico para organizar seus treinos ou traçar estratégias para suas provas. Um bom teste de esforço e a utilização correta dos dados coletados permitirão que você e seu frequencímetro treinem, compitam e se divirtam com eficiência. Apenas cuidado com as situações aqui relacionadas para não utilizar essa importante ferramenta de forma errada.

Ricardo Simões, professor Bio Eco Esportes – Avaliação Antropométrica / Força, Flexibilidade e Capacidade Aeróbia / Personal Trainer nas Áreas de Musculação, Treinamento Funcional, Corrida, Ciclismo.

DOUGLAS, C.R. et al. Tratado de fisiologia de médica às ciências médicas. 6ª ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006, 1440 p.

BURLESON, M.A.J. et al. Effect of weigth training exercise and treadmill exercise on post-execercise oxygen consumption. Medicine and Science in Sports and Exercise.  v. 30, n.  4, p. 518-22, 1998.

SIMÕES, R.S. et al. Comparison of Acute Cardiorespiratory Responses in Women Engaged in Local Muscle Endurance vs. High Load Strength Training. Journal of Exercise Physiology Online, v. 14, p. 106-119, 2011.

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