Cadência ideal no ciclismo?

Em  Janeiro deste ano a conceituada revista científica Internacional Journal of Sports Medicine publicou um artigo do também conceituado Federico Formeti intitulado “The Effect of Pedaling Cadence on Skeletal Muscle Oxygenation During Cycling at Moderate Exercise Intensity”. O artigo ganhou as páginas da Cycling Weekly sob o título carnavalesco “Ideal cycling cadence: new evidence why amateurs shouldn’t pedal like Chris Froome” com comentários dos autores e tornou-se uma avalanche sendo reproduzida em diversos sites e blogs de ciclismo, obviamente  chegando até nós em um caminhão de perguntas….

Como diz meu amigo @bernandoide… vá à fonte! Pegamos o artigo original fomos aos detalhes e sem a mínima pretensão de causar suspense, alegria ou frustração já adiantamos que as aplicações práticas que podemos retirar da pesquisa para o dia a dia de ciclistas iniciantes, amadores, que competem em nível recreacional, que competem em elite amadora, ou profissionais é…. NADA! Vamos às entranhas:

1º aspecto assustador é que dos 9 (somente 9!) indivíduos que fizeram parte da amostra não há nenhum ciclista!!!! Sim! Eram 2 triatletas, que competiam em nível regional com 3 anos de experiência no esporte; 6 indivíduos engajados em exercícios de intensidade moderada e vigorosa e 1 que praticava atividade física ocasionalmente.

Resumindo: NÃO ESTAMOS FALANDO DE CICLISTAS; nem iniciantes, nem amadores, nem nada! Brincadeiras à parte, triatletas tem uma forma de pedalar distinta de ciclistas, a bike é diferente, a posição na bike é diferente e a cadência geralmente é mais baixa devido a essas particularidades e a especificidade da modalidade que busca preservar certos grupos musculares durante o ciclismo, pois serão usados posteriormente na corrida.

Os outros 7 indivíduos NÃO PEDALAM, o nível de condicionamento físico deles foi determinado pelos parâmetros do American College, nem ao menos utilizou-se um Power Profile em W/Kg para categorizar em que nível de ciclistas eles se enquadrariam. Para finalizar, na metodologia não há menção sobre o poder estatístico da amostra em relação a consistência dos dados analisados.

2º aspecto que merece atenção é em relação aos protocolos de testes utilizados. A intensidade em que o protocolo foi realizado foi determinada em bicicleta estacionário na cadência constante de 60rpm. Não se pode descartar a possibilidade de a intensidade do limiar ser outra, caso os participantes tivessem a possibilidade de selecionar livremente a própria cadência.

O protocolo ainda tem o viés de ter testado de forma aleatória todos os ritmos de cadência – 40, 50, 60, 70, 80rpm – mas ter deixado sempre os 90rpm para o último intervalo, para todos os avaliados.  Nesse momento já transcorria 38 minutos de esforço e não há como ignorar o efeito da fadiga influenciando os dados aferidos, quando os participantes pedalaram em 90rpm. Para finalizar, a análise da perfusão de O2 foi feita por espectrografia de infravermelho somente do músculo vasto lateral da perna direita dos participantes, o que permitir inferir que os demais músculos envolvidos na pedalada poderiam estar se comportando da mesma maneira, mas isso não é absolutamente uma certeza.

3º aspecto dorme sobre os resultados. A heterogeneidade da amostra assusta e o nível de performance dos avaliados é pífia. Para ter-se uma ideia teve indivíduo que apresentou limiar ventilatório em 75Watts e indivíduo que o atingiu com 180Watts… mais que o dobro. A média da potência obtida no limiar ventilatório foi de 125Watts o que é algo bem baixo para padrões mínimos de performance. Não há discriminação dos resultados individuais, que permitam compreender como cada participante influenciou os resultados, não há apresentação de dados absolutos que permitam inferir o effect size dos resultados. Mostra-se uma queda relativa de 2% no nível de saturação de oxigênio do músculo vasto lateral pedalando em 90rpm quando comparado com 40 e 50rpm (-14% contra -12%) e somente com essa informação não há a mínima condição de dimensionar o impacto dessa redução na prática de ciclistas pedalando por horas sob as mais distintas condições de altimetria, inclinação e intensidade.

Das observações acima para o título da Cycling Weekly há um abismo incalculável e o que chama mais atenção é que muitas das observações acima ESTÃO APONTADAS NA PRÓPRIA DISCUSSÃO DO ARTIGO ORIGINAL! A questão principal passa longe de desqualificar achados científicos (que é onde buscamos consistência nas condutas), mas apontar que o artigo tem limitações e, principalmente, as generalizações que partiram dos seus resultados -inclusive potencializadas pela entrevista que os autores deram à Cycling Weekly – são inconsistentes.

A cadência tem importância fundamental e é cercada de complexidade, definir uma regra baseada no estudo citado é uma heresia.  A forma como cada ciclista determina a cadência de conforto depende do tamanho do braço do pedivela, do tamanho das coroas do pedivela, da configuração do cassete, do tipo de fibras, do calçado que ele está usando, da resistência que ele está encontrando e do seu nível de performance. Além da pesquisa ter vieses que favoreceram a maior eficiência em cadências mais baixas, pessoas que não pedalam naturalmente terão maior dificuldade para pedalar em cadências mais altas, pois em um primeiro momento a tendência é fazer da “pedalada” um subir de degraus e não um girar de manivela. Acomodar o gesto motor de forma a fazer o pedivela girar de forma harmônica, sútil, e eficiente, aproveitando toda complexidade cinesiológica dos músculos extensores e flexores do quadril, joelho e tornozelo é algo que leva tempo e exige treino.

Há que se apontar também para as aplicações práticas dos “achados” da pesquisa. Que sistema de transmissão atualmente acomodaria um range de marchas que possibilitaria manter rpm´s tão baixos (40, 50, 60rpm) em baixa intensidade e ao mesmo tempo permitiria uma divisão de força mínima para que ciclistas iniciantes vencessem um aclive mais relevante.

Obviamente o Froome… é o Froome para pedalar como ele, além de uma capacidade cardiorrespiratório e eficiência energética descomunal, não se pode esquecer as décadas de popo no selim lapidando a técnica e a percepção de como extrair da bicicleta o máximo que ela pode dar em cada situação específica. O pior cenário que podemos extrair dessa repercussão é vermos ciclistas tentando pedalar em cadências abaixo de 60rpm em nome de uma suposta eficiência energética 2% maior encontrada em situações laboratoriais muito específicas.

Cada ciclista vai encontrar naturalmente, de acordo com suas características, a melhor cadência para pedalar e vai necessariamente encontrar diversas situações que terá que superar usando cadências bem distintas daquelas que mais se adapta. Além disso, na própria pesquisa um dado que passou desapercebido, que foi o pico de força no pedal, este foi significante menor a 90rpm quando comparado a 40, 50 e 60rpm e essa é uma das razões que se preconiza a utilização de cadências mais altas com o intuito de preservar a força muscular para os momentos decisivos quando há necessidade de produzir altos níveis de potência. Portanto, é fundamental vivenciar e saber pedalar nos mais diversos ritmos e saber quando e como utiliza-los da melhor forma a seu favor.


Prof. Ms. Ricardo Simões, professor Bio Eco Esportes – Avaliação Antropométrica / Força, Flexibilidade e Capacidade Aeróbia / Personal Trainer nas Áreas de Musculação, Treinamento Funcional, Corrida, Ciclismo.

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